
Em termos ornitológicos, Março é um mês de transição e de contrastes. Isto porque algumas espécies de aves invernantes ainda estão presentes em bons números, mas várias aves estivais já chegaram dos seus quartéis de Inverno (situados sobretudo em África) e diversas outras (essencialmente residentes) iniciam agora a época de reprodução.
Entre as primeiras podemos citar a petinha-dos-prados (ver vídeo ) e o pisco-de-peito-ruivo , já mencionados para o início do ano.
Pisco-de-peito-ruivo (audio )
Os recém-chegados incluem a andorinha-dos-beirais , o cuco-rabilongo , o milhafre-negro e a cegonha-preta , que começam a aparecer em Noudar desde o final de Fevereiro. Ao longo do mês de Março chegarão ainda os andorinhões preto e pálido , as águias calçada e cobreira , o cuco-canoro e o picanço-barreteiro – entre outras.

Águia cobreira
Estas espécies vêm juntar-se às estivais realmente precoces, como a andorinha-das-chaminés e a cegonha-branca , alguns indivíduos das quais podem ser observados desde Janeiro e mesmo invernar na área.
O tentilhão-comum , cujo canto não se ouviu em Dezembro e Janeiro, altura em que vagueava pelos montados em pequenos bandos mono-específicos ou mistos com outras espécies de fringilídeos, separou-se dos bandos e recomeçou a cantar no final de Fevereiro e terá agora um pico de actividade vocal (vídeo c/ audio ).
Outras espécies que em Março já estão em plena época reprodutora são a perdiz-vermelha e o cartaxo-comum .

Cartaxo-comum
No caso das espécies gregárias apenas durante o Inverno, é curioso verificar que, no início do mês, algumas - como o pardal-francês - permanecem agrupadas enquanto outras - como o serino - já se observam isoladas ou aos pares e com os machos em pleno canto.
No que respeita às flores Março, e especialmente Abril, são os meses mais fantásticos no Parque de Natureza de Noudar – em poucas palavras, quase todas as espécies estão em flor. Esta característica é muito típica das regiões com clima mediterrânico. A Primavera, nestes climas, representa o período de transição entre a estação húmida, onde se dá o crescimento vegetativo graças à abundância de água; e a estação seca, na qual a maioria plantas pára tudo. É nesta estação intermédia que urge florescer, para que, antes que venha a seca, esteja a reprodução assegurada.
São quase 4 centenas de espécies que podem ser vistas em flor nestes meses! É difícil fazer uma escolha que possa ser abordada rapidamente aqui.
Uma grande parte dos arbustos estão agora cobertos de cor. As cistáceas , uma família muito exuberante e característica da região mediterrânica, estão no seu máximo agora, com grandes flores e flores em grande quantidade. Exemplos desta família são a esteva – Cistus ladanifer – que aparece em quase todo o Parque, e a roselha-grande – Cistus albidus – que surge principalmente nos azinhais.
Cistus ladanifer e Cistus albidus
Nos matos e azinhais vêem-se também agora os rosmaninhos . Há duas espécies no Parque, a mais frequente é Lavandula stoechas (ou L. luisieri ) muito rústica e que habita em sítios muito secos e quentes. A outra, L. pedunculata subsp. lusitanica , é mais difícil de encontrar, aparece pontualmente em azinhais e montados. A diferença entre as duas é simples, mas se não estivermos atentos pode passar-nos despercebida: as flores, no segundo caso, estão dispostas no extremo de um longo pedúnculo, ao passo que na primeira esse pedúnculo é muito curto.
Lavandula stoechas
Quanto a arbustos, destaca-se ainda Genista polyanthos , que se cobre quase totalmente de flores amarelas: é uma espécie de tojo com grandes e grossos espinhos. Não é muito frequente, habita principalmente afloramentos rochosos.
Genista polyanthos
As espécies herbáceas são infindáveis, basta caminhar um pouco pelos montados para se perceber isso. Muitas leguminosas e compostas estão em pleno agora; as que se podem considerar mais frequentes são Leontodon longirrostris (semelhante ao dente-de-leão) e Ornithopus compressus (serradela-brava ), mas não são as mais vistosas. Talvez uma das que chame mais a atenção seja a soagem (Echium plantagineum , a roxo na foto), muito frequente nos montados do Alentejo.
Echium plantagineum
É também nestes meses que se pode observar melhor uma das plantas mais raras que existe no Parque, aceite o desafio de a encontrar, não esquecendo que existem plantas parecidas com as quais se pode confundir. Trata-se de Ceratocapnos heterocarpa , uma frágil trepadeira que vive em locais sombrios e boscosos. Para além de rara no Parque, esta planta é também muito rara globalmente na Península Ibérica e especialmente em Portugal, poucos são os locais onde existe. Por isso tente perturbá-la o mínimo quando a vir, é um dos grandes valores botânicos aqui presentes.
Ceratocapnos heterocarpa (flor)