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Ficha do Pisco-de-peito-ruivo
Ficha do Pisco-de-peito-ruivo
O Pisco-de-peito-ruivo é um pequeno e atraente passeriforme, bem conhecido pela mancha alaranjada que lhe ornamenta o peito. É uma das aves portuguesas que mais alegra os dias de Inverno, com o seu canto melodioso e persistente.


Paulo Catry (adaptado por Luís Gordinho)

Identificação e Características

O Pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula é um pequeno Passeriforme da família Turdidae. Tem cerca de 14 cm de comprimento (mais ou menos como um Pardal), e pesa entre 15 e 20 gramas. É uma das aves portuguesas mais fáceis de identificar. Geralmente observa-se saltitando pelo chão (por vezes imobilizando-se com uma pequena "vénia"), ou poisado nos ramos baixos de uma árvore, adoptando sempre uma postura muito vertical. Tem no peito uma grande mancha cor-de-laranja bem demarcada, que se estende até à face. As restantes partes inferiores são de um branco sujo, e por cima é de um castanho uniforme. As aves jovens são malhadas de castanho por baixo, e não apresentam tons alaranjados. É impossível distinguir os machos das fêmeas com base na morfologia externa, embora os primeiros sejam, em média, ligeiramente mais corpulentos. As suas vocalizações são consideravelmente variadas. O canto é muito melodioso, variado, e por vezes um pouco melancólico. É muito vocal, e pode fazer-se ouvir durante quase todo o ano. Para além do canto propriamente dito, emite chamamentos que podem soar como tic-tic-tic-tic, ou szziiiii.

Distribuição e Abundância

É uma ave tipicamente europeia, embora também ocorra no Médio Oriente e Norte de África. Em Portugal a sua distribuição é variável, conforme a altura do ano. No Outono/Inverno encontra-se por todo o lado, das montanhas às cidades, do norte ao sul, e do interior ao litoral. Na Primavera/Verão tem uma distribuição alargada a norte do Tejo, mas a sul é escasso, concentrando-se nas regiões mais húmidas e próximas do litoral. Encontra-se, por exemplo, nas Serras da Arrábida, Grândola e Monchique. Na Madeira e na maioria das ilhas do Açores está presente todo o ano. É uma ave muito abundante (uma das mais abundantes no país), sobretudo durante a época fria.

Estatuto de Conservação

Comum como é, por toda a Europa, esta ave não suscita quaisquer preocupações no que diz respeito à sua conservação, tanto a nível nacional como internacional. Isto apesar de ser fácil de apanhar em armadilhas ("ratoeiras"), e portanto tradicionalmente bastante perseguido no campo. Esta perseguição ainda hoje se verifica, apesar do Pisco-de-peito-ruivo ser, como quase todos os pequenos Passeriformes, protegido por lei.

Estatuto no PNN

No PNN, durante o Outono e Inverno, o Pisco-de-peito-ruivo é muito comum e fácil de observar. Almeida e Geraldes (1999) estimaram a sua densidade invernal em 5,77 aves/10 ha, considerando-a a segunda espécie mais comum no Parque durante essa estação (suplantada apenas pela Petinha-dos-prados Anthus pratensis). Durante a época de reprodução, Rufino (1989) não assinalou a presença da espécie na área, nem em qualquer outro ponto do Baixo Alentejo. Posteriormente, a sua nidificação foi confirmada no Baixo Alentejo mas apenas junto ao litoral (Gordinho in Elias et al. 1999). Almeida e Geraldes (1999) estimaram a sua densidade primaveril no PNN em 0,03 aves/10 ha, considerando a sua nidificação possível. Durante o Inverno a espécie utiliza todos os biótopos do Parque mas é mais comum em matos, quer estes estejam em subcoberto de montado ou não. Durante a Primavera, localmente, ocorre apenas em formações do tipo bosque que só existem no extremo nordeste do Parque e a poente do Castelo (ambos junto ao Rio Ardila), podendo tratar-se de aves invernantes que só abandonam a região tardiamente.

  pisco

Habitat

Tanto de Verão como de Inverno o Pisco-de-peito-ruivo surge numa enorme variedade de habitats, desde que tenham algum grau de cobertura arbórea ou apenas arbustiva. Encontra-se desde as matas agrestes no alto das serras do norte até ao centro das grandes cidades. No norte e centro tanto pode ser abundante em matas de folhosas como em coníferas. No entanto, nas áreas de invernada do sul é bastante mais numeroso em áreas de montado do que em pinhais. Nesta época também é extraordinariamente abundante em áreas de matagal mediterrânico, como os da Serra da Arrábida, e em olivais. Em regiões muito abertas, à partida inóspitas para a espécie, coloniza facilmente pequenas sebes ou qualquer vegetação que proporcione um abrigo mínimo. Durante a reprodução prefere zonas sombrias e com alguma humidade, como bosques fechados, jardins frondosos e matas ribeirinhas.

Alimentação

Na Primavera/Verão o Pisco é quase exclusivamente insectívoro. Na verdade esta designação genérica significa que se alimenta não só de insectos, mas também de pequenas aranhas e outros invertebrados. Durante o Outono e Inverno, particularmente no sul da Europa, incluindo Portugal, torna-se parcialmente ou totalmente frugívoro. Nesta altura as suas fezes são negras ou côr de vinho, das cascas e polpas dos pequenos frutos ou bagas que ingeriu. Alimenta-se então das bagas de muitas espécies dos matagais mediterrânicos, como zambujeiros (ou oliveiras), aroeiras, medronheiros, madressilvas e folhados, entre outros. Nas áreas de montados ingere frequentemente partes de bolotas que foram parcialmente despedaçadas por outros animais. No norte da Europa também aceita alimentos sintéticos que lhe são oferecidos pelos amigos dos pássaros. Em períodos particularmente difíceis podem mesmo aventurar-se a apanhar minúsculos peixes em pequenos cursos de água.

Reprodução

A nidificação desta espécie quase não foi estudada em detalhe em Portugal, havendo ainda muito por descobrir. Sabemos que a maioria cria de Abril a Julho, mas ocasionalmente podem ser observados ninhos activos no Outono ou mesmo em pleno Inverno. Por exemplo, o ornitólogo inglês William Tait observou uma ave jovem recentemente saída do ninho em 4 de Janeiro de 1884, nas imediações do Porto. Esta espécie é monogâmica e territorial. Os ninhos podem localizar-se em buracos no solo, taludes, muros, por entre raízes de árvores velhas e no interior de casas abandonadas. O ninho é volumoso, com uma base feita de folhas secas, e uma "tijela" central de musgo, ervas e pequenas folhas, revestida de material mais fino, incluindo cabelos, fibras vegetais e ocasionalmente penas. A postura geralmente é constituída por 4 a 6 ovos brancos ou ligeiramente azulados, com um número variável de pequenas manchas avermelhadas. A incubação dura 13 a 14 dias, e as crias permanecem no ninho em média cerca de 13 dias antes de o abandonarem.

Movimentos

Os Piscos-de-peito-ruivo que nidificam em Portugal são provavelmente quase todos sedentários. Por outro lado, os que aqui vêm apenas para passar o Inverno, são migradores bastante notáveis. Muitos são originários da Escandinávia, ou mesmo da Rússia. Muitos outros provêm da Europa Central e Ocidental. As primeiras aves migradoras geralmente surgem na última semana de Setembro e a espécie torna-se abundante logo desde o princípio de Outubro. Em Março dão-se a maior parte das partidas de volta às áreas de reprodução, embora algumas aves possam ainda permanecer nos territórios de invernada até ao princípio de Abril. Muitos dos Piscos invernantes voltam aos mesmos locais de invernada em Portugal de uns anos para os outros, conforme foi possível confirmar graças a estudos de anilhagem.

Curiosidades

Este é um dos poucos Passeriformes europeus em que as fêmeas cantam regularmente, durante o Inverno, com vocalizações muito semelhantes às dos machos. Os níveis de hormonas masculinas nas fêmeas são então muito elevados. Provavelmente graças a isto, tantos os machos como as fêmeas podem defender territórios nas áreas de invernada.

Bibliografia

Almeida, J. e P. Geraldes. (1999). Censo de Aves Nidificantes e Invernantes na Herdade da Coitadinha – Relatório Final. CEA/UE e EDIA, Beja.

Catry, P., R. Rebelo, M. Lecoq e A. Campos (1999). Diferenças marcadas na actividade vocal de piscos Erithacus rubecula invernantes em biótopos distintos. Resultados preliminares. Actas do II Congresso de Ornitologia da SPEA . SPEA, Lisboa.

Cuadrado, M. (1995). Site fidelity and territorial behaviour of some migratory passerine species overwintering in the Mediterranean area . Tese de Doutoramento, Universidade de Lund.

Elias, G., L. Reino, T. Silva, R. Tomé e P. Geraldes (coords.) (1999). Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo . SPEA. Lisboa. 416 págs.

Lack, D. (1945). The life of the robin . Whiterby, London.

Rufino, R. (Coord.) (1989). Atlas das aves que nidificam em Portugal Continental . CEMPA. SNPRCN, Lisboa.

Schwabl, H. (1992). Winter and breeding territorial behaviour and levels of reproductive hormones of migratory European robins. Ornis Scandinavica 23: 271-276.

Snow, D.W. e C.M. Perrins (1998). The Birds of the Western Palearctic . Concise Edition. Oxford University Press, Oxford.

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