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Ficha do Picanço-barreteiro
Ficha do Picanço-barreteiro
O Picanço-barreteiro é um atraente passeriforme predador, que inverna em zonas situadas a sul do Sahara e que chega a Portugal na Primavera para nidificar. Conheça connosco o essencial das suas características e ecologia.


Luís Miguel Reino (adaptado por Luís Gordinho)

Identificação e Características

O picanço-barreteiro Lanius senator é uma ave da ordem dos Passeriformes com cerca de 18 cm de comprimento. Ambos os sexos apresentam a região ventral de cor clara. A garganta é de cor branca. A coroa e a nuca são praticamente todas castanho-arruivado e a fronte é de cor negra. O negro da fronte prolonga-se até às coberturas-auriculares, envolvendo os olhos o que origina uma espécie de mascarilha típica deste género. O manto (costas) é negro nos machos sendo ligeiramente mais claro nas fêmeas. As escapulares são brancas e as remiges (penas de voo) são negras, exceptuando uma mancha branca na base das primárias. A cauda é preta mas bordeada a branco. As coberturas supra-caudais e o uropígio também são brancos. A fêmea apresenta um padrão semelhante, todavia as suas cores são menos vistosas. Os juvenis são muito semelhantes aos do picanço-de-dorso-ruivo Lanius collurio contudo, as partes superiores do picanço-barreteiro são mais pálidas e acinzentadas.

Distribuição e Abundância

O picanço-barreteiro é uma espécie migradora politípica (com várias subespécies/raças) transahariana, cuja distribuição durante a época reprodutora se encontra praticamente restrita ao Sudoeste do Paleárctico. Distribui-se por toda a região mediterrânica, excepto o Egipto. Na Europa é sobretudo uma espécie dos países mediterrânicos existindo, todavia, algumas populações isoladas na Europa Central.

No nosso País encontra-se bem distribuído, evitando todavia as áreas do litoral centro e norte com clima mais húmido. Por exemplo, encontra-se largamente ausente no Alto Minho. Ao invés, no Sul do País e em muitos locais do interior sul e norte, pode ser muito abundante. Podemos considerar esta espécie como uma das mais típicas dos montados do Sul do País.

  picanço-barreteiro

Estatuto de Conservação

No século XX, e em particular a partir de meados dos anos 60, este picanço sofreu um acentuado declínio, sobretudo nas regiões norte e ocidental da sua área de distribuição. Algumas das causas apontadas para este declínio são as alterações climáticas (com, por exemplo, Primaveras mais húmidas), que teriam provocado uma retracção da sua distribuição a norte. De igual modo, a alteração das práticas agrícolas (com o desaparecimento de áreas de agricultura extensiva associada a uma paisagem em mosaico com sebes e bosquetes) também terá desempenhado um papel importante no declínio deste picanço. Em termos europeus é considerada uma espécie vulnerável, sendo englobada na categoria SPEC 2 (SPEC corresponde a Species of European Conservation Concern - espécies que suscitam preocupações de conservação a nível europeu). Em Portugal é considerada uma espécie Quase Ameaçada (ICN 2004).

Estatuto no PNN

Uma vez que o PNN é dominado por montado e que este se encontra bastante bem preservado, não é surpreendente que o Picanço-barreteiro aqui seja abundante e fácil de observar. Globalmente, os dados do Programa de Monitorização da Biodiversidade colhidos em 2001 e 2004 indicam que, na Primavera, o Picanço-barreteiro está entre as 12 espécies mais comuns e mais amplamente distribuídas no Parque (Erena 2004). Verificou-se ainda uma diminuição significativa da sua abundância nesse período, sendo sugerido que, para esta e outras espécies, a realização de podas e a remoção de árvores mortas em áreas limitadas pode ter efeitos positivos, mas que esses efeitos se tornam negativos quando são afectadas áreas mais extensas e contínuas.

Se visitar o PNN entre Abril e Setembro, mantenha-se atento à copa das azinheiras, às vedações e a outros poisos privilegiados e cedo descobrirá uma ou mais destas belas aves.

Habitat

Em Portugal, encontra-se sobretudo associado a habitats tipicamente mediterrânicos. Os seus biótopos preferidos são os bosques abertos, desde os olivais aos montados de sobro e azinho, mas também ocorre em pomares de amendoeira e laranjeira, sebes e matas ripícolas. Na Beira Alta e no Nordeste transmontano frequenta ainda bosques de carvalho negral e de outras folhosas, por vezes associados a lameiros. Frequentemente, usa os fios e os postes, telefónicos ou eléctricos, como locais privilegiados de observação do seu território de caça.

Alimentação

Os picanços são pequenos predadores cuja alimentação é feita sobretudo à base de insectos e, em particular, de escaravelhos e de gafanhotos e espécies aparentadas. Pode consumir ainda outros grupos de invertebrados, porém com uma frequência muito menor. O consumo de pequenos vertebrados e de pequenos frutos é menos frequente. À semelhança do que fazem outros picanços, esta espécie "empala" os alimentos que não são imediatamente consumidos em árvores ou arbustos com picos ou em vedações de arame-farpado.

Reprodução

Normalmente os dois elementos do casal chegam às zonas de nidificação na mesma altura e, aparentemente, já emparelhados. Os machos que não estão emparelhados são normalmente muito barulhentos, perturbando frequentemente os casais vizinhos. No mediterrâneo ocidental, o período de posturas inicia-se no fim de Abril e na Grécia a partir de 10 de Maio. Normalmente as segundas posturas (mais frequentes como posturas de substituição das primeiras) começam por volta de meados de Julho. O macho é que selecciona o local para a construção do ninho, iniciando-a logo quando chega, sendo secundado pela fêmea um ou dois dias mais tarde. O tempo de construção é de 4 a 6 dias. Os ninhos são construídos em árvores ou arbustos, sendo largamente constituídos por material vegetal. As posturas variam entre 4 e 8 ovos, mais frequentemente 5 ou 6. O período de incubação prolonga-se durante 14 e 16 dias.

  picanço-barreteiro

Movimentos

É uma espécie migradora que nidifica na Europa e África, invernado a Sul do deserto do Sahara mas a Norte do Equador. Em Portugal, chega aos seus territórios de nidificação entre Março e meados de Abril, partindo para os territórios de Inverno durante o mês de Setembro.

Bibliografia

Cramp, S. e Perrins, C.M. (1993). The Birds of the Western Palearctic, vol. VII. Oxford University Press, Oxford.

Erena (2004). Monitorização da Biodiversidade na Herdade da Coitadinha - 1.º Relatório Anual (não publicado). EDIA/INTERREG III, Beja.

ICN (2004). Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa. www.icn.pt.

Lefranc, N. & Worfolk, T. (1997). Shrikes. A guide to the shrikes of the world. Pica Press, Norfolk.

Olivier, G. (1944). Monographie des Pies-Grièches du genre Lanius. Lecerf, Rouen.

Rufino, R. (Coord.) (1989). Atlas das Aves que Nidificam em Portugal Continental. Serviço Nacional de Parques Reservas e Conservação da Natureza, Lisboa.

Tellería, J.L.; Asensio, B & Díaz, M. (1999). Aves Ibéricas. II. Paseriformes. J.M. Reyero Editor, Madrid.

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