Teresa Catry (adaptado por Luís Gordinho)
Identificação e Características
A Cegonha-preta (Ciconia nigra) pertence à ordem dos Ciconiformes. Não é comum como a bem conhecida Cegonha-branca (Ciconia ciconia) e, uma vez que é uma espécie tímida, a sua observação pode tornar-se difícil. É um pouco mais pequena que a Cegonha-branca, medindo cerca de 97 cm de comprimento e aproximadamente 190 cm de envergadura. A plumagem é negra na cabeça, pescoço, dorso e asas, possuindo brilhos metálicos verde-dourado, púrpura e vermelho-cobre em determinadas condições de luminosidade. A barriga é branca; as patas e o bico são vermelhos. A fêmea possui uma tonalidade ligeiramente mais mate e é um pouco mais pequena que o macho. As aves jovens não possuem brilho na plumagem, que é negra-acinzentada, e o bico e as patas são esverdeadas. É habitual observar esta espécie pousada em escarpas, árvores altas e postes eléctricos, quase sempre em zonas remotas e isoladas.
Distribuição e Abundância
Nidifica em toda a Eurásia e no Sul de África, com praticamente metade da sua área de distribuição localizada na Europa, onde é uma espécie rara e localizada. Actualmente as principais populações reprodutoras estão concentradas na Polónia, Rússia e Turquia. Na Europa Ocidental e Central esta espécie sofreu um declínio na segunda metade do século XIX e chegou mesmo a extinguir-se na Bélgica, Dinamarca e Suécia. Desde então as populações têm vindo a recuperar lentamente na Europa Central, nomeadamente em França e na Alemanha, e também em Espanha. No entanto continuam a diminuir em Portugal, na Lituânia, Croácia, Albânia e Grécia. A população europeia está estimada em 6.500 a 19.000 casais reprodutores.
Em Portugal esta espécie nidifica no interior do país, principalmente junto aos rios Douro, Tejo e Guadiana. A população portuguesa está estimada em 30 a 50 casais.

Estatuto de Conservação
Em consequência da redução na área de distribuição e do declínio populacional sofridos, a Cegonha-preta é considerada uma SPEC (Species of European Conservation Concern), tendo sido colocada na categoria SPEC3, que inclui espécies cujas populações não se encontram concentradas na Europa mas que apresentam um estatuto de conservação desfavorável. No Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal está classificada como Vulnerável. Inclui-se ainda nas Convenções de Cites, Bona (Anexo II), Berna (Anexo II) e na Directiva Aves (Anexo I).
Estatuto no PNN
Em 1995 foram detectados 13 ninhos de Cegonha-preta no distrito de Beja, seis em rocha e 7 em árvore (Rosa 1995). Das cerca de 114 quadrículas UTM 10x10 km desse distrito, a nidificação só foi confirmada em 15 (13%). Essas quadrículas foram as mais próximas da fronteira com Espanha, as dos vales dos rios Ardila e Guadina na zona de Moura (actualmente, em parte, sob a Albufeira de Alqueva) e a da Serra da Brejeira (a norte da Serra de Monchique). Entre as primeiras contam-se as duas pelas quais se estende o PNN. Quer Almeida e Geraldes (1999) quer a Erena (2004) referem a ocorrência da espécie no Parque, porém, nem uns nem outros, fornecem qualquer estimativa da sua abundância. A Cegonha-preta é sobretudo uma espécie estival no PNN onde pode ser observada de Março a Agosto. È frequentemente observada do Castelo de Noudar ou da estrada do Castelo para Barrancos mas pode ser detectada com relativa facilidade de qualquer ponto alto do Parque. Fora do PNN, imediatamente para montante ao longo do vale do Rio Ardila, existe outra zona muito favorável à sua observação. De Inverno é muito rara mas, por vezes, é possível observar um indivíduo isolado à pesca no rio (Elias et al. 1999).
Factores de Ameaça
A destruição e degradação de florestas, constitui a principal ameaça à sobrevivência desta espécie. Na Rússia o rápido desenvolvimento da agricultura e da indústria e a sobre-exploração das florestas provocaram uma redução acentuada na disponibilidade do habitat da Cegonha-preta. Também a perturbação humana nas áreas de nidificação constitui um factor de ameaça, uma vez que é responsável pelo reduzido sucesso reprodutor. O abate ilegal de aves na migração, nomeadamente em África, a mortalidade devida a colisões com postes de alta tensão e a contaminação por pesticidas constituem outras ameaças não negligenciáveis. Em Portugal, onde a maior parte dos casais nidifica em fragas fluviais, a navegação e a pesca de rio também constituem ameaças importantes pela perturbação gerada.
Habitat
A Cegonha-preta é uma ave territorial e cada casal necessita de uma extensa área que poderá ter entre 50 e 150 Km2. Tem preferência por florestas espontâneas de folha caduca e mistas, nas quais encontra ribeiros, rios, prados, zonas palustres e charcos ricos em alimento. No sul da área de distribuição reproduz-se também em regiões de penhascos, habitualmente fragas junto a rios, mas também em zonas de montado de azinho e sobro.
Alimentação
Esta espécie alimenta-se em ribeiros de água límpida, charcos e prados húmidos. Captura principalmente peixes, anfíbios e insectos, mas também outros pequenos vertebrados, como ratos e aves jovens.
Reprodução
A Cegonha-preta não nidifica colonialmente, mas por vezes é possível encontrar dois ninhos na mesma árvore ou junto a ninhos de garças. Constrói o ninho com ramos, terra, musgo, papel, em árvores velhas e de grande porte ou em penhascos, a uma altura que varia entre 4 e 25 m. No seu território possui frequentemente vários ninhos que são utilizados alternadamente de ano para ano e que, com o tempo, ganham grandes dimensões. A postura é constituída por 2 a 5 ovos esbranquiçados, que são incubados durante um período aproximado de 35 dias. Os juvenis atingem a idade de emancipação entre os 63 e os 71 dias.
Movimentos
Esta espécie é migradora e dispersiva. Algumas aves da Península Ibérica e do Sul da Europa são residentes; no entanto, as restantes populações migram em Setembro ou Outubro para invernar na África sub-Sahariana. As populações do leste tendem a invernar na Índia e na China. As Cegonhas-pretas chegam às áreas de nidificação cerca de duas semanas mais tarde que as Cegonhas-brancas, em finais de Março e inícios de Abril. Na migração não se juntam às Cegonhas-brancas, mas antes a algumas espécies de abutres que utilizam as mesmas rotas migratórias.

Curiosidades
Apesar de ser uma espécie caracteristicamente tímida e reservada, pontualmente, a Cegonha-preta tolera a presença humana. Na Transcaucásia habitou-se ao Homem: nidifica na periferia ou mesmo no centro das aldeias e pesca no tanque da aldeia ou no ribeiro do prado, enquanto os camponeses trabalham no campo.
Bibliografia
Almeida, J. e P. Geraldes (1999). Censo de Aves Nidificantes e Invernantes na Herdade da Coitadinha – Relatório Final (não publicado). EDIA, Beja.
Elias, G.; L. Reino; T. Silva; R. Tomé e P. Geraldes (coords.) (1999) Atlas das Aves Invernantes do Baixo Alentejo. SPEA. Lisboa. 416 págs.
Erena (2004). Monitorização da Biodiversidade na Herdade da Coitadinha - 1.º Relatório Anual (não publicado). EDIA/INTERREG III, Beja.
Pacheco, C. e P. Monteiro (1999). Efectivo populacional de algumas aves rupícolas na área proposta para Parque Natural do Tejo Internacional. In Beja, P., P. Catry e F. Moreira (Eds.). I Congresso de Ornitologia da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. SPEA. Vila Nova de Cerveira. Pp. 90-91.
Rosa, G.D. (1995). Recenseamento de Cegonha-preta Ciconia nigra no Sul de Portugal. CEMPA/ ICN, Lisboa (não publicado).
Rosa, G., A. Monteiro, A. Carvalho, H. Blanco e A. Araújo (1996). A situação da Cegonha-preta Ciconia nigra em Portugal. In Farinha. J.C., J. Almeida e H. Costa (Eds.). Actas do II Congresso de Ornitologia da SPEA. Lisboa. Pp. 107-108.
Snow, D.M. e C.M. Perrins (Eds.) (1998). The birds of the Western Palearctic. Concise Edition; vol. 1 Non passerines. Oxford University Press.
Tucker, G.M. e M.F. Heath (1994). Birds in Europe: Their Conservation Status. Birdlife Conservation Series nº 3.

